Cape Epic2008: Team Epic Brazil supera o desafio com resultado incrível
No quinto dia de abril, em Lourensford (África do Sul), cruzei a linha de chegada da corrida mais fascinante da qual já participei. Era o fim da 5ª edição do ABSA CAPE EPIC, uma maratona de mtb com oito etapas e um prólogo, totalizando 966 km e 18 mil metros de desnível acumulado ao longo de nove dias sem intervalos.
Ao meu lado, literalmente de mãos dadas, estava a campeã mundial de 24h solo, a norte-americana, Rebecca Rusch, atleta da Specialized. Ela também havia perdido sua parceira, Cristina Beggy, que se acidentou e quebrou a clavícula na quarta etapa da prova. Foi por acaso que nos encontramos no meio da sexta etapa, a primeira onde larguei individualmente, após meu parceiro no Team EPIC Brazil, Eduardo Soares (Dudu), ter voltado às pressas para o Brasil, devido ao estado gravíssimo de saúde de seu pai, que semanas depois veio a falecer.
Para quem continua na prova sem seu parceiro, encontrar alguém que pedala de forma parecida e que seja uma companhia alto astral durante os momentos mais difíceis da prova, é uma benção e uma força a mais para vencer o desafio.
Rebecca, além de ser forte, é espirituosa. Soava uma campainha instalada no guidão toda vez que passávamos por espectadores que nos saudavam e sacava uma câmera fotográfica toda suada do bolso da camisa pra registrar os momentos mais interessantes. Foi assim que acabei aparecendo na sua coluna no site da Velo News. Ao chegarmos em uma praia perto da chegada em Hermanus, ela sacou a digital do bolso e pediu para que eu posasse para uma foto. Dois dias depois tinha gente me chamando, falando que eu tinha saído no site, e coisa e tal.
O Cape Epic é mesmo digno de foto. Começando pelas paisagens durante as etapas e cidades anfitriãs, a Vila da Corrida, com sua arquitetura e organização primorosas, as figuras singulares do mundo todo, que fazem parte desse cenário e várias outras situações que merecem registro. Atletas, staffs, voluntários, familiares, repórteres e aficionados pelo esporte passam mais de uma semana isolados do mundo, em uma caravana onde as únicas preocupações são pedalar, comer, cuidar do equipamento, se cuidar e descansar para encarar a próxima etapa.
Durante as premiações diárias, ouvíamos o MC falar que o Cape era um mini Tour de France do MTB. Acho que isso ilustra bem a prova, dentro das devidas proporções, é claro.
Começo, meio e mais um pouco do fim.
Para quem toma essa decisão maluca de embarcar nessa empreitada, a missão começa cerca de um ano antes. Primeiramente há de se conseguir a vaga para participar, pois devido ao número de pretendentes ser maior do que a prova acomoda, é realizado um sorteio lotérico para que você tenha direito de se inscrever. Para um estrangeiro, a chance é ainda menor que para um sul-africano, pois eles têm 65% de preferência sobre as cerca de 1200 vagas disponíveis.
Também pode se conseguir uma vaga com trabalho voluntário. No nosso caso, foi devido ao envolvimento do Dudu em 2007 que essa história se tornou realidade. Ele foi voluntário e garantiu a vaga. Além disso, teve uma prévia do que era a prova e como era a África do Sul.
Com a vaga na mão, a semente do Team EPIC Brazil foi plantada logo após o Iron Biker, quando perguntei ao Dudu se ele já havia definido seu parceiro para a prova. Inicialmente ele convidara seu primo, que é um atleta de ultramaratonas e triathlons. Mas, ao perceber meu interesse, logo tratou de mudar os planos, pois pensou que nós dois teríamos muito mais chances de obter um bom resultado, devido ao nosso envolvimento com o MTB e ao nível de preparo físico bem equiparado.
Enquanto a decisão final era tomada, eu conversei com minha amiga e treinadora, Adriana Nascimento, que já havia participado da prova em 2007. Ela ficou animada com a idéia e deu força para que eu seguisse em frente com a empreitada.
Quando o e-mail do Dudu chegou, dizendo que nossa parceria estava de pé, deu até um frio na barriga. E a ficha caiu mesmo algum tempo depois, quando comecei a me informar mais e mais sobre a prova, receber as planilhas da Adri e ouvir suas orientações e comentários.
O primeiro receio que passa pela nossa cabeça é o compromisso de treinar em média 15 horas por semana, com picos de mais de 25 horas em alguns momentos, para que, segundo um grande amigo meu, “a prova não passasse por cima de mim”. E é isso mesmo. O Cape Epic começa por aí, cerca de seis meses antes quando já se está em boa forma, ou um ano antes, para quem precisa de um trabalho maior para enfrentar “o selvagem e mágico Cape Epic”, como a própria organização define a prova.
Foram vários treinos de estrada de mais de cinco horas, quando todos meus amigos estavam de recesso da temporada de corridas. Uma viagem por parte do Caminho da Fé (250 km em três dias com muita subida). Ano Novo e Carnaval em Campos de Jordão com pedais muito longos (na casa das seis horas), intercalados com outros bons pedais. Quando chovia, eu treinava no rolo em casa e me transportava para o trabalho, sempre que possível, de bike. Foram três meses de musculação. Corridas? Participei de todas que trariam benefício para meu objetivo final. Basicamente você começa a viver bem mais tempo em cima da bike que o normal, o que não é nada mal para quem adora pedalar.
O Dudu, em Belo Horizonte, passava pela mesma rotina e também participou da viagem do Caminho da Fé, para testarmos o nível da forma da dupla, que estava bem equilibrada. Pouco tempo depois ele competiu no 5h de BH, faturando um ótimo terceiro lugar na geral solo, que reafirmou sua boa condição física.
Além dos treinos, foi ele quem cuidou de toda a logística de inscrição, hospedagem, traslados e outros detalhes. Eu fiquei com a parte dos equipamentos, desenho do uniforme, alguns contatos para apoio e aquisição das passagens.
No final de março partimos para a África do Sul. Junto a nós estavam minha esposa, Carol Rombauer, que iria trabalhar como voluntária no staff da prova, Michel Bogli e José Filho, a dupla cearense da Abrame, e Antonio Paulo Jr, o Júnior, que iria correr com um sul-africano que ele conseguiu na última hora, pois seu parceiro contraiu malária e teve que ficar por aqui.
Ao chegarmos na África, a primeira curiosidade é que o trânsito é todo invertido. Eles dirigem do lado oposto, na mão oposta e isso confunde a todos na hora de pedalar pela cidade. Segui a dica do Dudu: KEEP LEFT, ou seja, mantenha-se à esquerda, essencial para se manter vivo no trânsito.
Os dias que antecederam a prova foram tranqüilos. O local onde aconteceu o prólogo e a largada da primeira etapa, Knysna, é uma deliciosa e pacata cidade à beira-mar, com muitos barcos particulares, um imenso lago e uma paisagem maravilhosa. Local perfeito para relaxar e incorporar o espírito da prova.
Em poucos dias vimos a cidade ser literalmente tomada por bikers do mundo todo. O dia em que fomos buscar nossos kits de atleta, nomes como Bart Brentjens, Tom Ritchey, Christoph Sauser, Thomas Frischknecht, Karl Platt, Alyson Sydor e Pia Sundstedt, Jeremiah Bishop e Chris Eatough estavam lá também para pegar os seus. A regra é que a dupla tem de retirar seu kit sem representante e completa. Ali começava nossa jornada e te digo que deu arrepio.
Fomos para o prólogo, que tinha horário marcado para largada de cada dupla a cada 30 segundos. O nosso era 9 horas 25 minutos e 30 segundos. Já deu pra sentir o nível da organização.
O circo foi armado no canto de um campo de golfe, num loteamento chiquérrimo com visual digno de F1. Coisa de filme mesmo.
Lá estávamos nós na largada da prova que mudou nossa rotina por tanto tempo, a realização de um sonho. Montamos nas nossas Specialized EPIC, as máquinas mais letais que existem para esse tipo de prova, e saímos como loucos para pedalar os 16 km do prólogo. Um contra relógio em um circuito bacana e que definiria nossa posição de largada na primeira etapa.
O critério é dividir o pelotão em grupos na largada, separando os mais rápidos dos mais lentos.
E foi nesse primeiro dia de prova que o Team Epic Brazil mostrou que não veio pra brincar em serviço, fazendo um excelente resultado e terminando o prólogo de 17 Km na sétima posição da categoria Masters e um incrível 57º lugar na Geral. Imaginem nossa euforia!
Já no segundo dia de prova fomos para a largada super cedo, bem cedo mesmo, pois queríamos alinhar no melhor lugar possível. E lá estávamos no gate B, praticamente na boca da linha de largada, vendo na nossa frente ninguém menos que Tom Ritchey e Thomas Frischknecht. Quando deu a largada parecia coisa de filme, era helicóptero, batedores de moto, quadriciclo, espectadores e 1200 atletas com um único objetivo: completar a prova considerada a mais difícil maratona de MTB da atualidade. Largamos no bolo e pedalamos uns 50 minutos com atletas fortíssimos, entre eles, para nossa surpresa, Alison Sydor, que depois deu uma despachada na gente que nos fez cair na real. Não é a toa que ela é pódio na olimpíada e várias world cups, com uma carreira impecável e invejável!
Foram 123 km duríssimos de trilhas com cerca de 3040 metros de ascensão, entre as cidades de Knysna e George. Terminamos a etapa em 12º na categoria, mesmo tendo passado por um pequeno problema técnico. Na somatória da categoria, estávamos na décima posição da Master e 70ª na Geral. Era quase surreal: nós, marinheiros de primeira viagem, no top 10 da masters do Cape Epic.
A vibe estava muito boa entre nós dois com todo esse sucesso. Começou o processo de adaptação à prova, que não é simplesmente sentar na bike e pedalar durante seis horas. Tem o antes, o durante e o depois de cada etapa. É trabalho para o dia inteiro.
A Rotina
Para compreender melhor o que é correr o Cape Epic, vou explicar o roteiro de atividades do dia-a-dia:
- Alvorada às 5 h, sendo que você começa a acordar sozinho, por volta das 4h50 ou perto disso, conforme o despertador que você ligou. Esqueceu-se de ligar e não acordou sozinho? Pode ter certeza que vai acordar às 5 h com a buzina de caminhão que soa diversas vezes até a tropa levantar.
- Não dá para ficar enrolando no sleeping bag não. Se você já se adaptou à rotina, suas coisas devem estar todas prontas ao lado do seu colchonete, dentro da barraca. Por coisas, quero dizer: todo o equipamento de pedalar, suas comidas, suas garrafas já com isotônico, óculos limpos, ferramentas, câmaras, CO2, etc. Tudo à mão para você automaticamente ir se aprontando. Ah, a mala deve estar semi-pronta também, faltando apenas colocar sleeping, pijama e itens de higiene pessoal lá dentro.
- Depois de se aprontar, é hora de enfrentar a fila do café da manhã e comer mesmo sem ter fome, para não pifar duas horas depois de iniciar a etapa. O sono e o cansaço te fazem meio lento nesse processo, por isso é importante não parar de fazer as coisas e deixar o estado de torpor tomar conta. Saudade do pãozinho francês quentinho com manteiga Aviação derretida e aquele café com leite gostoso de casa? Melhor esquecer. O café é do tipo em pó solúvel e pão quentinho só quando estiver em um hotel ou em casa mesmo. O negócio é encarar o pão de forma frio, ovos mexidos, queijo ralado (não dá pra servir mais de 1000 pessoas com queijo fatiado), geléia, iogurte, cereal e suco de caixinha. Aquele suco fresco de laranja, espremido na hora...ESQUECE, meu! Ah, até tem umas maçãs e, se você for rápido e chegar cedo o suficiente, umas bananas também. Elas são ultra concorridas.
Uma coisa legal, que mostra a preocupação da organização, é fornecerem saquinhos plásticos para que você prepare um sanduba ou alguma outra coisa pra levar no bolso. Isso é essencial, pois não dá pra comer só energéticos doces durante seis horas e não dá pra ficar sem comer também. Achar o equilíbrio pra manter o tanque cheio sem enjoar é essencial.
- Depois do café da manhã é hora de retirar sua bike do estacionamento (Bike Park), tarefa que só pode ser feita pelo dono da bike, por motivos de segurança. Com a bike em mãos, é hora de correr para a barraca, terminar de arrumar suas coisas, fechar a mala e levá-la para a tenda de bagagens, onde o pessoal coloca em um caminhão que a levará para a chegada da etapa. A mala, por sermos marinheiros de primeira viagem, estava um chumbo, com peças de reposição para as bikes e mais roupas do que iríamos usar. Carregá-la da tenda para a barraca e vice-versa era uma tarefa odiosa. Mas ainda bem que era curta.
- Com tudo pronto, mala despachada, era hora de ir ao banheiro (essencial, né!?) e logo em seguida para os currais de largada (gates). Novamente, não dá pra ficar viajando em nenhum momento, pois o curral fecha as 6h50 e, se você não estiver lá, tem que largar no fundo. A largada acontece pontualmente às 7 h.
Até o Dudu ter que ir embora, devido à nossa boa colocação, estávamos largando no gate B, que era praticamente na linha de largada. O fundo do grupo era no gate G ou H. À nossa frente, havia não mais que cem competidores, Faça as contas, então: se largássemos no gate G ou H....teríamos de passar cerca de 1000 atletas para chegarmos junto ao pelotão onde pedalávamos todos os dias. Infelizmente, eu vim a descobrir o que era passar por isso. Continue lendo.
- Pedalar uma média de seis horas por dia, com temperaturas que variam entre amena na manhã (14 a 16 graus) a bem quente no final de cada etapa (28 a 42 graus), em percursos que variam entre estradões de terra batida, onde quase sempre você se encaixa em um pelotão e se pergunta se os outros atletas estão cientes do tamanho da etapa ou do morro que temos pela frente, devido ao ritmo, a trilhas de todo o tipo e terreno, com muitos trechos de pedras soltas, seja na descida ou subida. Quando você acha que vão tirar o pé um pouco, a velocidade sobe e se marcar você sobra de roda. Não tem moleza no Cape Epic, acho que nem pra quem vai fazer cicloturismo.
Pra quem quer andar forte, então, é pauleira o dia todo. Claro que durante tanto tempo e por tantos quilômetros, você tira o pé por alguns momentos para recobrar os sentidos. E tem as paradas nos “water points”, ou postos de abastecimento, para esticar as pernas e as costas. Mas elas não passam de um minuto e de três por etapa. Por que tanta pressa? Porque geralmente você chega ao posto em um pelotão e não pode ficar marcando para não perder a carona no “ônibus”, que era como chamávamos os pelotões que encontrávamos ao longo das etapas.
Ao final de cada etapa, a sensação era a mesma: olhávamos estarrecidos para nossos computadores, ao ver que já estávamos no km 100, mas ainda faltavam 20, 30 ou 45 km! E muitas vezes, essa “merreca” era a parte mais dura, seja pelo vento contra infernal, cansaço, areia ou mesmo uma subida animal que aparecia para a gente enfrentar.
- A chegada era sempre emocionante. A cada linha cruzada, nos enchíamos de alegria e orgulho, por ter vencido mais um desafio. Mas não dava pra ficar comemorando, não! Era beber, beber e beber de tudo que tinha no posto da chegada. Copos e copos de Coca-cola, água e Energade, o isotônico sul-africano que patrocinava a prova.
- Logo após esse reabastecimento e recobrada de sentidos, enchíamos nossas caramanholas de água e seguíamos para o “bike wash” para limparmos nossas bikes. Lá, meia dúzia de voluntários simpáticos passavam desengraxante nas partes certas e penduravam a bike em um dispositivo bacana para lavá-la com pressão. No começo fiquei em pânico, pois sou avesso ao método de lava-rápido. Mas, diante da situação, relaxei, pois não havia alternativa e o cansaço era tanto, que ficava feliz ao receber minha bike limpinha em cinco minutos.
- Com a bike limpa, era hora de estacioná-la no Bike Park para que secasse e marcar uma massagem para ajudar um pouco na recuperação. Nem sempre fazíamos isso, mas o fizemos por duas vezes para aliviar um pouco nosso sofrimento. O próximo passo: pegar a mala, levá-la para a barraca e tomar os drinks de recuperação. Em seguida, pegar o material de banho e ir para os caminhões-chuveiro tirar a casca de poeira misturada a protetor solar e suor. A qualidade do banho era impressionante. Chuveiros com pressão, água quente e fria separadas, dentro de uma cabininha com porta e chave. Tudo isso dentro de uma espécie de container, que era transportado por caminhão. Fila, quase sempre tinha. Quanto mais cedo se chega, menos fila se pega. Em tudo: banho, massagem, bike wash e comida.
- De banho tomado, era hora de comer ou, no caso de receber uma massagem, era hora de ir para a massagem que já havíamos pré-agendado ao chegar. Meia hora de descanso merecido, dando uma ajeitada na carcaça, era muito bom. Mas não resolvia nenhum problema...só amenizava.
- Comida depois da chegada era por nossa conta (café da manhã e jantar estão inclusos no pacote de inscrição). Para o almoço, a organização concede espaço para montarem suas barracas de hambúrguer, macarrão, panquecas doces, café, cachorro quente, etc. Era um momento de relaxamento depois de lavar bike, pegar mala, arrumar barraca, tomar banho, fazer massagem, limpar alguns equipamentos... Dava para pegar a comida e ir para o Chill Zone, uma tenda enorme onde tinha um bar e era possível acompanhar a corrida até o final.
- Alimentado e com um pouco de repouso por ter ficado sentado, era hora de pegar no batente de novo. Retirar a bike do estacionamento e dar uma revisada geral. Limpar o que não saiu no power wash, lubrificar, verificar pressões das suspensões e pneus, olhar as rodas, reapertar parafusos e conferir o funcionamento geral. Com isso feito, era devolver a bike no Bike Park e descansar por vinte ou trinta minutos até a hora do jantar.
- Às 18 h em ponto começavam a servir o jantar. Logo se formava uma fila, que andava relativamente rápido à medida que o pessoal ia se servindo e encontrando suas mesas dentro da enorme tenda-restaurante. As 19 h iniciava-se apresentação de estudantes locais, discurso do prefeito, discurso dos patrocinadores e premiação da etapa, dos lideres e o briefing da etapa seguinte, onde uma imagem de satélite do trajeto era projetada em um telão e a diretora de circuito explicava tudo com detalhes.
- Mais ou menos às 20h30 voltávamos para nossas barracas, iniciando a função de arrumação e ir ao banheiro, escovar os dentes, etc. Lá pelas 21h30 desmaiávamos, mas não era possível dormir direto a noite toda. O corpo em recuperação e com o metabolismo a mil esquenta e, devido à grande ingestão de líquidos para afastar o fantasma da desidratação, é normal acordar no meio da noite e caminhar até o banheiro. Tudo com lanterna, ouvidos tampados com plugues e avistando outros zumbis perambulando pelo acampamento. Às 5 h começava tudo de novo.
Momentos Memoráveis
- Nossa colocação no Prólogo – sétimo lugar na categoria - foi surreal para estreantes no Cape Epic. Ficamos empolgadíssimos!
- Pedalar por 50 minutos com Alyson Sydor e ver que não damos nem “pro cheiro”, quando ela apertou o passo e sumiu com sua parceira.
- A dedicação e eficiência do pessoal dos Water Points, especialmente no posto 2, onde trabalhavam duas brasileiras – Carol Rombauer e Luciana Cox.
- Ter nosso nome anunciado ao passar pelo Water Point 2 e na chegada. Isso acontece com todo mundo e é mais um gesto de atenção e carinho da organização para com os atletas. Para se ter uma idéia, no dia do aniversario do Dudu, eles anunciaram a data nos alto-falantes, antes da largada.
- A simpatia do pessoal envolvido. Todo mundo ralando, mas a vibe era sempre boa.
- Pedalar no mesmo pelotão que o Tom Ritchey e ver o quanto alguém com 51 anos e paixão pelo esporte, anda forte.
- O visual no início da escalada do segundo dia, no meio de um vale de montanhas de pedra e grama, com helicóptero filmando e uma subida que dava para ver todo mundo ao longo do caminho. Isso aliado ao sol que ainda se escondia por trás das montanhas, foi muita emoção.
- “Carregar” conosco as atletas da Dolphin até o fim da terceira etapa, empurrando as e dando vácuo, fazendo com que chegassem à frente da dupla da Trek Norte Americana.
- Os downhills alucinantes, uns extremamente técnicos e outros de altíssima velocidade (84km/h de máxima registrada no computador).
- Falar português com os irmãos da terrinha durante a prova.
- Nossa nona colocação na quarta etapa, aniversário do Dudu. Nesse momento estávamos entre os dez da categoria Masters.
- Ver o tombo do Dudu na quinta etapa e imediatamente saber que nossas chances de resultado tinham ido por água abaixo.
- No mesmo dia do tombo, durante a etapa mais longa (146 km), chegar no km 70 após ter pedalado por 10 km sobre areia relativamente fofa, onde tivemos que empurrar em diversos trechos e perceber que ainda tinha muita areia para rolar e mais uns 65 km pela frente. Foi um dos momentos mais sofridos e desgastantes de toda a corrida. Nesse mesmo dia dramático, veio a ligação que mudaria tudo: a família do Dudu pedindo que ele voltasse para o Brasil, devido ao estado gravíssimo de saúde do seu pai. Era o fim do Team Epic Brazil em 2008.
- O dia seguinte...quando tive que largar sozinho e cheguei no gate B, onde o fiscal super gente boa, que lembrou do aniversario do Dudu, olhou pra mim e falou que infelizmente a regra exigia que eu largasse em último lugar e não havia nada que ele poderia fazer.
- Largar a pé e demorar uns três ou quatro minutos só para cruzar a linha de largada e perder todos os pelotões mais rápidos, para encontrar atletas com quem estava pedalando todos os dias, somente 15 ou 20 km depois de fazer muita força.
- Encontrar a Rebecca Rusch e formar par com ela durante a sexta e oitava etapas, cruzando a linha de chegada final de mãos dadas com ela.
- A cidade anfitriã da sexta etapa, Hermanus, à beira-mar, que é linda e foi eleita como a preferida. Vale a pena visitar. O local é ponto de observação de baleias na época em que elas se aproximam da costa e tem um charme encantador.
- A camaradagem entre os atletas – na sétima etapa eu quebrei a gancheira do câmbio devido a um galho enorme que entrou na roda traseira. O pedaço que quebrou ficou emperrado no câmbio e eu não conseguia tirar de jeito nenhum com uma ferramenta portátil. Não é que foi parando gente, depois que tentei por meia hora em vão resolver o problema, e conseguimos tirar a peça com um alicate de bico e um mini-alicate de pressão. Foi incrível! Depois da etapa fui pagar uma cerveja para o atleta da Afripex, que tinha uniforme de tigre, em agradecimento à sua assistência. Ele era um dos tipos que vai à prova mais por curtição do que pelo resultado.
- O singletrack dentro de uma florestinha de pinheiros na sétima etapa. Diversão muito bem vinda, depois de tanta ralação.
- A Avenida Brasil, que dias depois virou Avenida Luso-brasileira, ostentando bandeiras dos dois países e um só idioma!
Concluindo
A sensação de completar a prova que muitos consideram a mais dura maratona de mountain bike do mundo foi muito emocionante. Um misto de alívio e alegria, aliados à atmosfera festiva que a organização preparou no circo de chegada, me fez chorar por alguns instantes. A partir daquele momento comecei a pensar como seria correr de novo em 2009, algo que ainda não havia passado pela minha cabeça durante o sofrimento enfrentado em algumas etapas. Para se ter uma noção, imagine você com 110 km de prova, sob calor escaldante, tendo que manter o ritmo frente a um vento contra incessante, com mais de 5 horas e meia de pedal nas costas, faltando 15 km para o final. E isso se repetiu durante as seis primeiras etapas, todas com mais de 120 km, uma delas chegando a 146 km. Muita coisa pode acontecer e é por isso que equipes que estão no topo em um dia, podem mudar de posição rapidamente se tiverem um dia ruim, com problemas mecânicos ou físicos.
Conforme comentei com um amigo, fizemos praticamente todas as provas de maratona mais importantes do calendário brasileiro, exceto a volta de Santa Catarina, em uma semana. Isso sumariza bem o tamanho do Cape Epic.
Claro que, falando de África, uma das perguntas mais comuns é se avistamos algum animal selvagem. A resposta é sim, mas não na quantidade e variedade que muitos esperam. Durante a prova, só vi umas zebras à distância e um antílope pertinho. Em uma fazenda de avestruzes, vimos aves bem grandes e, quando a prova já havia terminado, dando um passeio em Cape Town, no Cabo da Boa Esperança, vimos uma cobra e alguns babuínos.
Se você pensa em fazer o Cape Epic, entre logo no site e inscreva-se na loteria. A prova não é só para atletas de ponta não. Tem de tudo e pra todos. Só 20% não chegaram até o fim. Aí é só esperar o e-mail com a confirmação da vaga e treinar o mínimo para completar esta, que é a maratona mais fantástica do planeta em um país surpreendente.
Em 2009 tem mais. Aguarde o Team Epic e suas Specialized Epics voadoras!
Gostaria de agradecer àqueles que nos ajudaram enfrentar o mágico e selvagem CAPE EPIC:
Daniel Aliperti contou com o apoio da Pedal Power, Sram – Rock Shox – Avid e Truvativ, Specialized, Bermudas e testeiras da VO2 Max, Energéticos GU, Camisas Da Matta, CA Comunicação e Adriana Nascimento – assessoria esportiva.
Eduardo Soares contou com o apoio de postos de combustível ALE, Tripp Aventura, Camisas Da Matta, Bar Entrefolhas, Bermudas e testeiras VO2 Max, SRAM, Specialized e OCE/www.treine.net - assessoria esportiva.
Texto: Daniel Aliperti
Data: 02/06/2008
fonte: Amigos da Bike