Por Hugo Prado Neto
Foram 5 meses de preparação, 5 meses de concentração para encarar a maior prova de mountain bike do mundo, a ABSA Cape Epic. A corrida acontece nos arredores da cidade do Cabo e conta com 8 etapas, totalizando 707 árduos quilômetros. A edição desse ano foi considerada a mais dura de todas as edições, pois foi bem mais técnica e contava com um nível de atletas ainda mais alto. Vale ressaltar que a corrida se torna mais complicada pelo fato de ser feita em duplas, ou seja, ambos os atletas têm que estar devidamente bem treinados, com os equipamentos devidamente acertados e com a cabeça pronta para encarar essa mega ultramaratona do mountain bike.
A OCE-treine.net contou com um contingente de atletas nessa grande prova, desde atletas profissionais (eu e o Robson) com ambições altas em termos de colocações; a empresários, estudantes e profissionais liberais preparados para terminar a prova e receber a custosa medalha de “finisher”, que é dada na última etapa nos arredores de Lauresnford com uma festa completa para os atletas no gramado do famoso vinhedo. A cestinha de picnic recebida junto com a medalha resume tudo, ela diz: “parabéns pela sua conquista épica!” Aqui sim somos considerados heróis, respeitados e motivados desde a hora que pegamos os nossos kits até a chegada na última etapa.
Mas para chegar ao final dessa grande festa com direito a belos shows ao vivo, apresentação da Red Bull Air Race e os melhores vinhos do mundo o trabalho é árduo e não é qualquer um que consegue essa conquista, mesmo tendo feito todo o para casa perfeitamente. A regra inicial para quem busca essa conquista é, desde já, saber que há uma grande possibilidade de algo dar errado nessa jornada e o segredo não é fazer com que tudo dê certo, mas saber lidar com as barreiras que irão aparecer.
Como na própria vida a Cape Epic 2011 trouxe drama, tristezas, alegrias, conquistas e também frustrações para nossos atletas da OCE, mas no fim tanto o resultado dos nossos atletas como o aprendizado não poderiam ser melhores
Hugo Prado Neto e Robson Ferreira
Pessoalmente eu esperava muito dessa dupla. Desde o dia 10 de Novembro meus treinos foram perfeitamente calculados pelo medidor de potência em gráficos mirabolantes que me ajudavam a acertar a quantidade e qualidade exatas dos treinos até o dia da largada. Não havia perdido nenhum treino e além do mais estava com o atual Bi-Campeão Brasileiro e Bi do Iron Biker Robson Ferreira, então no papel dificilmente poderíamos achar uma dupla melhor para representar o Brasil em uma Ultramaratona de 8 dias. Mas o que aconteceu já no prólogo foi uma sequência de azar e coisas ruins tirando nossa chance de simplesmente tentar disputar e tentar chegar perto do nosso objetivo, ficar entre as 15 primeiras duplas e pontuar no ranking da UCI para nosso país.
O Robson teve problemas com a comida da África do Sul resultando numa infecção intestinal e já no prólogo tivemos que tirar o pé. Além do mais, minha corrente perdeu o powerlink no final do prólogo. Na 1ª etapa o Robson não estava recuperado, continuou passando mal e não conseguindo se alimentar culminando na desistência do Cape. Na 2ª etapa larguei sozinho atrás de todo mundo, com 3 km querendo passar o pessoal mais lento pedalei na mão e bati o pedivela na curva, o movimento central quebrou e tive que voltar 4kms na contra mão e pegar o pedivela do Robson emprestado. Demorei 50min nesse processo e depois saí atrás de todo mundo igual um louco, a etapa tinha 120km de extensão! Com certeza iria terminar até mesmo para treinar uma vez que se não fizesse isso iria ficar parado assistindo os outros correrem. Além de usar o restante da prova como treino meu foco principal foi me motivar sem motivação e sem objetivo, mas logo uma luz mágica se acendeu. Eu pensei: já que sozinho eu não poderia ter nenhuma meta, porque não andar junto com o Cesar e Silvinho já que eles seriam agora a 1ª dupla do Brasil e estavam sempre entre as 20-40 duplas e passar o que fosse possível para certificar que eles completassem o belo trabalho que estavam fazendo? Meu coração se encheu de endorfina e ânimo. Melhor que vencer é fazer os meninos da OCE vencerem. Pensei em ser útil para os dois de alguma forma e parecia então, que agora estava tudo acertado para terminar a prova puxando esse bonde contendo 2 dos melhores atletas do Brasil, quanta honra! Bom, essa meta durou pouco porque ainda na 2ª etapa eu emprestei a minha camara reserva para um tcheco e 400m depois o que acontece? Eu rasgo meu pneu nas milhões de trilhões de pedras que existem na região Oeste de Cape Town. Como diz o César: “aqui nascem pedras” .
Inicio a 3ª etapa ainda sem saber que atleta da UCI mesmo sozinho larga na frente com uma camisa diferenciada, ai eu me animo porque recebo uma linda camisa do evento e vou poder largar junto com os meninos. Fiquei com o Cesar e o Silvinho no inicio e depois andei com eles o final da etapa. Tudo certo, né? Agora vou andar no restante das etapas e puxar esses meninos! Não foi bem assim, pois da 5ª etapa em diante tive vários problemas de sinusite com o clima super seco e sereno nos fins das tardes, a partir daí a motivação realmente foi finalizar sem correr com motivação. As últimas 2 etapas eu pedalei todos os 187km vestindo a sandália da humildade vendo dupla por dupla me passar. Mas que eu cruzei a linha de chegada eu cruzei! E terminei meu 2º Cape Epic o que no futuro pode ser extremamente importante. Acredito que aprendi mais com essa situação do que se tivesse alcançado a minha meta, e esse aprendizado guardarei comigo para soltar para os atletas da OCE na hora que cada um precisar, porque sei que muitos passarão pelos momentos e pensamentos que eu passei!
Silvio Otávio e César Gonçalves
Bom, o que falar desses dois? Para começar eles foram a 1ª dupla sulamericana do Cape Epic 2011, igualando a mesma conquista minha e do Uirá ano passado e mantendo esse honroso título dentro da nossa família da OCE. Mas o que difere esses meninos de mim e do Uirá? Apenas que eles são atletas amadores no papel. Mas assim como eu e Uirá, mesmo com alguns patrocínios, precisamos trabalhar durante o dia e dar conta dos exigentes treinos feitos por mim, pois para esses dois eu não dou mole não! Eu considero isso uma grande conquista porque o Cape Epic é uma corrida de verdade, mesmo sendo 8 dias direto a competição é acirrada e você corre contra os melhores atletas do mundo. Se você pára para ir ao “banheiro” rapidinho 10 duplas te passam e se estiver no meio da pista passam por cima de você!
Então ficar entre as 31 primeiras duplas de 600 duplas no maior evento de MTB do mundo resume o trabalho e dedicação que esses dois vêm fazendo já a alguns anos. Agora o objetivo dos dois é conseguir ter um ótimo ano depois de uma ultramaratona, em Araxá os dois prometem! Vamos torcer, porque eles merecem muita torcida! Parabéns Silvinho e Cesinha, vocês não surpreenderam, vocês bateram o martelo! Mostraram que apesar das várias dificuldades pra treinar, pra obter apoio, pra manter o foco nos treinos, pra finalizar a prova: temos campeões de verdade!
Maurício e Evaldo
O mineiro Maurício Marques e Evaldo Pereira dos Santos fizeram sua estréia na maior prova de MTB do planeta marcada por consistência, regularidade e união entre as duplas. Soberbo na parte física Maurício Marques incentivou o parceiro a acreditar em terminar a prova e Evaldo equilibrou a conquista com sua habilidade nas partes técnicas. Parabéns Maurício e Evaldo pela bela participação.
Atletas que terminaram solo
O que eu tenho para dizer para os atletas que foram e não terminaram é que a glória é uma jornada e não um destino. As estatísticas de 2011 mostram que foi o ano com maior desistência na história do Cape Epic e a jornada começa lá atrás quando vocês assumem o compromisso de buscar treinar para alcançar esse objetivo e mesmo assim sem garantias de que vão alcançar na 1ª tentativa.
Com a desistência forçada de alguns atletas, seus companheiros tiveram que fazer como eu ir à luta sozinhos! Foi o caso do médico de Belo Horizonte Cláudio daMata e do estudande de direito de Brasília André Mendes. Com a desistência de suas respectivas duplas os dois atletas fizeram todas as etapas sozinhos realizando uma das maiores conquistas de suas vidas. Correr a Cape Epic em dupla é difícil demais, agora correr sozinho é só para quem realmente está com a cabeça no lugar. Parabéns!
O parceiro de Cláudio, o empresário Alfredo Ebrahim não pode terminar porque também teve uma infecção intestinal assim como o Robson. O que sinto através do feedback dele é que sem terminar ele já é um ser humano campeão:
“Fala mestre, pode ter certeza que não sou de desistir, me conheço o suficiente para recolher a viola e por no saco , estava somente me sentindo um pouco melhor no sábado para domingo, vim tendo vômitos e diarréia ate a chegada no Brasil, foi uma bela intoxicação das severas só que eu não consigo ficar sem andar, frustrado estou em deixar meu parceiro sozinho na guerra , ele foi um cara 10 pois eu apaguei e não me lembro de várias coisas que aconteceram , treinei hoje e a força está voltando, vou girar a semana toda, pois o que você fez em me preparar somente vai melhorar (...) o ano está começando e pega pesado comigo ok tenho que ficar leve em subida. “ Alfredo Ebrahim
Outro que perdeu o tempo máximo em uma etapa foi o companheiro e pai de André, Chico. Mesmo não podendo terminar ele mudou o foco para apoiar o filho de outra maneira, dando suporte técnico para que o filho conseguisse terminar essa jornada e realizar essa grande conquista, e eles conseguiram. André terminou o Cape Epic e com certeza parte dessa grande conquista é do Chico que inclusive foi o idealizador desse projeto. Valeu demais, Chico.
Ricardo Garcia é outro empresário casca grossa que não gosta de desafios pequenos. Ele já fez várias ultramaratonas ao redor do mundo , incluindo Iron Biker Itália. Mas na 2ª etapa do Cape não conseguiu finalizar no tempo previsto. Nesse dia 50 pessoas desistiram sendo que menos de 120 atletas ao todo desistiram na edição inteira de 2010. Frustrado Ricardo? Não. Ele simplesmente já está inscrito na TransRockies no Canadá.
Infos Gerais do Cape Epic
• A prova foi vencida por Cristoph Sauser e Burry Stander da equipe songo.info. Eles ganharam com uma vantagem de quase 11min na 2ª dupla;
• O Cape Epic originalmente era usado como apenas uma prova longe do inverno da Europa para os profissionais europeus fazerem base para o ano, mas como o próprio campeão mundial Jose Hermida mencionou, os atletas estão vindo para ganhar. O ritmo é forte do começo ao fim e se tornou o Tour de France do MTB. E assim foram todas as etapas intensas, longas e técnicas;
• 3 helicópteros acompanharam toda a prova passando 4 das 8 etapas ao vivo para todo o continente africano. Foi a 1ª vez na história do MTB que isso acontece. Essa é a corrida mais televisionada no mundo, mais de 175 países;
• Foi o ano com mais atuais campeões mundiais e medalhistas olímpicos;
• 6 clavículas foram quebradas no mesmo lugar na 1ª etapa, incluindo Kevin Evans um dos melhores maratonistas do mundo;
• Atletas de 54 países participaram da prova;
• A delegação brasileira contou com 42 atletas ao todo, a maior de todas as 8 edições;
• A OCE-treine.net foi a empresa de treinamento esportiva com maior número de atletas brasileiros pelo 2º ano consecutivo;
• A prova foi considerada a edição mais dura de todos os anos;
• Absa, principal patrocinador do evento é um dos maiores bancos da África do Sul e o que mais patrocina esportes no mundo. O Banco já assinou mais 3 anos de contrato com os organizadores da prova.